Maria Gabriela Llansol
"A mulher sai da casa pelo caminho das palavras e olha a árvore. O que está fora de si é mútuo do que está dentro de si. É esse o seu canto, a sua transparência, a sua premonição.
Aquela de quem não se diz «ela», mas «tu», volta a olhar a árvore- e o olhar com que a olha é uma escuta.
Tu sabes que o mundo chega-nos através de um lapso na destruição, por intermédio de um nó no desfazer. Imaginas a realidade porque ela te pede que lhe restituas o que lhe tiraram. Distrais-te do tempo porque ele é como os cabelos que crescem e que caem. Deixas a carga porque o que pesa não tem fulgor nem medo. Tu caminhas no teu caminho, e as palavras são pedras quentes, aves subterrâneas, rios imersos, ramos curvados, rostos errantes, astros desiguais.
A mulher entra em casa pelo caminho dos animais, aquele onde eles são o inverso de um sonho mais distante. Andas com passo leve, assim são leves as folhas que o vento agita e não possui. A mulher deixa a sua pegada como se o chão fosse um mar de sombras áridas e árduas. Avanças sobre a terra, e ela é a tua morada, o teu leito, a raiz da tua felicidade, a corda que te prende ao movimento, a distância ao poder e ao desterro.
A mulher entra em casa, e o coração não se distingue dela. Entras em ti, e a luz faz-te passar pelo seu verso, deixa-te andar colada ao seu recuo. Passas e deixas para trás o que levas, porque essa é a boa lei para se viver sem nada, para se morrer com tudo.
A mulher está sentada na sua margem, na sua absorção, ao seu entardecer. As suas mãos são múltiplas como tudo o que existe: heterónimas uma da outra, até ao infinito. Tu, a ambidestra! Tu, a da mão que aponta, dupla da que escreve. Tu, a da mão que escreve, gémea da que faz. Tu, a da mão que dá, máscara da que tira. Tu, a da mão que limpa, enigma da que suja. Tu escreves o teu caminho num mapa vertical, e não há nele senão a poeira de tudo o que é. Tu sabes que a verdade é um exército móvel de metáforas, mas queres que esse exército trave uma guerra que se transforme em paz. Tu és a que escreve uma escrita infinita. E és o que escreves-quando te tornas na escrita em que nos tornas.
Agora, há um relâmpago que é uma visão que cai. Olhas as figuras que te cercam para te adivinhar. Vês a luz a escurecer e levantar-se como um doente num hospital vasto e silencioso.
Agora, a mulher está deitada, mas a agonia não a faz desistir do seu nada. Não a distrai do seu sono. Não a fecha numa solução. Não a derruba do seu trono ao contrário.
Agora, a mulher está morta, mas a sua morte não a priva de viver, não a cansa o suficiente, não a proibe de caminhar para os outros, não a impede de ser nos outros. Agora, tu és em nós o que a tua ausência diz. És o ditado que continuamos a escrever, o que um dia escrevemos na escola. Lembras-te como se fosse hoje! Lembro-me como se fosse hoje! O ditado cai sobre as palavras que escrevemos, assim como o amor cai sobre os corpos que o fazem. As palavras que escrevemos são as palavras do deserto-as do fogo, as da sede. São palavras que disseste, sem cessares o silêncio delas. São as palavras que escreveste no muro do mundo."
-Impressão Digital por José Manuel dos Santos- Expresso de 21.03.2008
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